domingo, 18 de junho de 2017

PEREGRINO

vou peregrino me adentrando a alma
a alma onde está? pergunta o peregrino
mas a pergunta não o encontra aflito
buscando a alma ele regressa a casa

vou peregrino voando como pássaro
voando dentro de mim volto ao menino
reencontro nele o eterno Ser divino
que antes de mim em mim faz sua morada

vou peregrino pela suave estrada
volto ao colo materno como filho
nos caminhos de dentro e tanto o brilho
nos caminhos de dentro e tanta a calma

vou peregrino por veredas claras
o não lugar em mim é meu destino
o destino de todo peregrino
o não lugar onde a palavra cala
onde a alegria é plena (não há lástima)
e a vida vai serena como os rios

segunda-feira, 8 de maio de 2017

EM TODOS DEUS


pelo caminho encontro Deus com fome
na fome de um faminto e vou servi-Lo
quem serve não sou eu mas Deus comigo
pois no faminto e em mim há o Deus sem nome
é Deus que serve a Deus: é Deus que come
o que Ele mesmo oferta: é Deus mendigo
Deus doador: Deus que recebe e o abrigo
Deus amparando Deus na dor de um homem
o ego (que é cego) pensa que ele serve
é sempre Deus que serve: é sempre Deus
Aquele que recebe esse serviço
o mesmo Deus Aquele que me pede
o mesmo Deus recebe o meu pedido
Deus é quem fala ali no desvalido
Deus é quem geme: é Seu todo gemido
Deus auxilia e é quem recebe auxílio
é Deus em mim que atende a Deus pedindo
é Deus em mim também o amor sentido

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A CRIAÇÃO

naquele tempo não havia o tempo
só Ele havia eterno no infinito
que era todo das formas não tecido
toda forma a viver ainda não sendo

naquele tempo não havia o vento
era o som do não-vento era o vazio
de tudo que não era então nascido
não havia as tardes nem o amanhecendo

naquele tempo havia o escuro denso
o escuro imenso onde Ele (só) havia
não havia noites não havia os dias
mas sempre d'Ele havia o pensamento

do pensamento d'Ele vão nascendo
a luz as águas terra fogo abismos
as plantas pedras vão nascendo os bichos

nós que em Seu pensamento já vivíamos
nascido o tempo nós então nascemos
no tempo imerso Seu sorriso é pleno



terça-feira, 28 de março de 2017

O EGO

o ego se inflama quer aplausos grita
o ego se irrita quando não é visto
quando passeia anônimo entre os vivos
por não ser visto ele se infelicita
o ego tem medo quer-se cortejado
o ego tem raiva tem furor na alma
tem ódio quer tesouros quer medalhas
o ego percebe a alma aprisionada
ao ego e tanto sofre e perde a calma
se perde o impermanente que idolatra
o ego aborrece a vida se amofina
anda em busca daquilo que termina
sofre a ilusão do que se vai não fica
esbraveja colérico em desdita
se toma de pavor e se angustia
mas nessa forma em que ele o ego habita
quando o ego se dissolve a essência brilha
a mesma essência que é em cada vida

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

IRIS

iris a flor nasce e se esvai num dia
o eterno rompe o tempo e então se ausenta
inesperadamente se apresenta
quando menos seu vir se pressentia

iris a flor o eterno que se inventa
irrompe nos limites me extasia
a alma quando a vejo (principia
e termina tão breve)  se contenta

ciclicamente a flor que não havia
surge (me encanta)  bela me acalenta
do eterno (em tempo exíguo me alimenta)
que de sua beleza se irradia

iris a flor quando ela me surgia
flor nascida mulher (tranquila e lenta
foi sua chegada) logo ela se assenta
bela em meu coração que da alegria
do eterno prova (do que não sabia)
e alarga o dia e o dia me apascenta





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

INSTANTE

o instante me escapa como a água me escapa
entre os dedos das mãos se vou aprisioná-la
se quero mesmo a água é deixá-la sem tê-la
se quero mesmo o instante é caminhar com ele
por todas as veredas: é passearmos juntos

e Deus que habita o instante me convida a senti-Lo
nas coisas mais pequenas entre as dobras do tempo
entregar-me sem medos: não querer mensurá-Lo
e nunca pensar n"Ele (tão-somente vivê-Lo)

viver Deus no instante a cada instante novo
nas mais pequenas coisas que há no meu caminho
abraçá-Lo e beijá-Lo na pessoa que chega
vê-Lo também na dor que chega
abraçá-Lo e beijá-Lo nessa dor que chega
receber Seus afagos de Mãe
na pessoa na dor no pó da estrada

o instante me baste como me basta Deus
o instante me baste como me basta Deus

FOME DIVINA

sentado no banco azul da parada dos ônibus
Deus com os pés inchados o corpo sem banho os olhos sem esperança
me sento ao lado de Deus: ouço sua voz divina
reclamando da vida reclamando da vida

se dirigindo a mim Deus me pede comida
que eu compre ali no bar pão com sardinha
eu me levanto vou ao bar e volto
(naquele bar não há pão com sardinha)
como voltar a Deus sem levar-Lhe comida?

na lanchonete há salgados e sucos
compro um salgado de carne e um suco de uva
e os levo a Deus esperando comida

Deus contempla o salgado e sabendo-o de carne
me diz que Ele quer um salgado de frango
me levanto de novo e vou à lanchonete
troco o salgado e vou levá-lo a Deus

Deus me sorri um sorriso tão d'Ele
e sôfrego mastiga com Sua fome de Deus