segunda-feira, 24 de abril de 2017

A CRIAÇÃO

naquele tempo não havia o tempo
só Ele havia eterno no infinito
que era todo das formas não tecido
toda forma a viver ainda não sendo

naquele tempo não havia o vento
era o som do não-vento era o vazio
de tudo que não era então nascido
não havia as tardes nem o amanhecendo

naquele tempo havia o escuro denso
o escuro imenso onde Ele (só) havia
não havia noites não havia os dias
mas sempre d'Ele havia o pensamento

do pensamento d'Ele vão nascendo
a luz as águas terra fogo abismos
as plantas pedras vão nascendo os bichos

nós que em Seu pensamento já vivíamos
nascido o tempo nós então nascemos
no tempo imerso Seu sorriso é pleno



terça-feira, 28 de março de 2017

O EGO

o ego se inflama quer aplausos grita
o ego se irrita quando não é visto
quando passeia anônimo entre os vivos
por não ser visto ele se infelicita
o ego tem medo quer-se cortejado
o ego tem raiva tem furor na alma
tem ódio quer tesouros quer medalhas
o ego percebe a alma aprisionada
ao ego e tanto sofre e perde a calma
se perde o impermanente que idolatra
o ego aborrece a vida se amofina
anda em busca daquilo que termina
sofre a ilusão do que se vai não fica
esbraveja colérico em desdita
se toma de pavor e se angustia
mas nessa forma em que ele o ego habita
quando o ego se dissolve a essência brilha
a mesma essência que é em cada vida

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

IRIS

iris a flor nasce e se esvai num dia
o eterno rompe o tempo e então se ausenta
inesperadamente se apresenta
quando menos seu vir se pressentia

iris a flor o eterno que se inventa
irrompe nos limites me extasia
a alma quando a vejo (principia
e termina tão breve)  se contenta

ciclicamente a flor que não havia
surge (me encanta)  bela me acalenta
do eterno (em tempo exíguo me alimenta)
que de sua beleza se irradia

iris a flor quando ela me surgia
flor nascida mulher (tranquila e lenta
foi sua chegada) logo ela se assenta
bela em meu coração que da alegria
do eterno prova (do que não sabia)
e alarga o dia e o dia me apascenta





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

INSTANTE

o instante me escapa como a água me escapa
entre os dedos das mãos se vou aprisioná-la
se quero mesmo a água é deixá-la sem tê-la
se quero mesmo o instante é caminhar com ele
por todas as veredas: é passearmos juntos

e Deus que habita o instante me convida a senti-Lo
nas coisas mais pequenas entre as dobras do tempo
entregar-me sem medos: não querer mensurá-Lo
e nunca pensar n"Ele (tão-somente vivê-Lo)

viver Deus no instante a cada instante novo
nas mais pequenas coisas que há no meu caminho
abraçá-Lo e beijá-Lo na pessoa que chega
vê-Lo também na dor que chega
abraçá-Lo e beijá-Lo nessa dor que chega
receber Seus afagos de Mãe
na pessoa na dor no pó da estrada

o instante me baste como me basta Deus
o instante me baste como me basta Deus

FOME DIVINA

sentado no banco azul da parada dos ônibus
Deus com os pés inchados o corpo sem banho os olhos sem esperança
me sento ao lado de Deus: ouço sua voz divina
reclamando da vida reclamando da vida

se dirigindo a mim Deus me pede comida
que eu compre ali no bar pão com sardinha
eu me levanto vou ao bar e volto
(naquele bar não há pão com sardinha)
como voltar a Deus sem levar-Lhe comida?

na lanchonete há salgados e sucos
compro um salgado de carne e um suco de uva
e os levo a Deus esperando comida

Deus contempla o salgado e sabendo-o de carne
me diz que Ele quer um salgado de frango
me levanto de novo e vou à lanchonete
troco o salgado e vou levá-lo a Deus

Deus me sorri um sorriso tão d'Ele
e sôfrego mastiga com Sua fome de Deus

CRIANÇA

quando eu era criança tudo estava certinho
havia os bons e os maus
mocinhos e bandidos
havia certezas na minha alminha de criança

quando eu era criança ainda não havia crepúsculos
havia a noite e havia o dia
durante a noite eu criança dormia
durante o dia ia pra escola e brincava

quando eu era criança havia Deus e o Diabo
o céu e o inferno (o purgatório ao meio)
havia ricos que tinham de ser ricos
havia pobres que tinham de ser pobres
e os do purgatório com medo de ser pobres
uma vontade danada de ser ricos

quando eu era criança havia a vida e a morte
o medo da morte: o desejo da vida
havia virtudes e pecados
tudo no seu lugar quando eu era criança

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

ÁGUA

mora sede na garganta da alma
mora sede de uma água incontrolada
líquido eterno a água não-gerada
nascida líquida de si mesma a água

só dessa água a garganta se acalma
mata sua sede: nada mais a aplaca
é uma sede primeva na garganta da alma
outra água não há que a satisfaça

outros líquidos há de uma doçura amarga
líquidos que se esvaem e uma fonte em que nasçam
deles inquieta a alma não se aparta
mas mesmo assim busca a não-fonte da água
da água que flui antes que o mundo se faça
da água sempre havida e não-chegada

mora sede na garganta da alma
outros líquidos vêm: outros líquidos passam
mas pela alma uma água é desejada
essa que havia quando havia o nada