quarta-feira, 16 de agosto de 2017

NAQUELE TEMPO

naquele tempo havia o Deus velhinho
de longas barbas brancas
que morava no céu
pra onde eu ia caso eu fosse bom

pro inferno eu ia caso eu fosse mau
havia o purgatório onde eu ficava
por algum tempo (sendo mau e bom)

também havia o Filho
que tinha vindo pra morrer na cruz
que um dia voltaria pra julgar
se eu tinha sido mau ou sido bom

ainda havia o Espírito
Santo (uma pomba branca)
línguas de fogo (era o consolador)

depois não mais havia
não mais havia Deus (não era o fim)
com olhos novo olho dentro e mim
e de repente havia Deus-Amor

sábado, 8 de julho de 2017

O SORRISO DE CLARICE

há um sorriso bonito
no rosto de Clarice
toda ela é um sorriso
benfazejo sorriso
luminoso sorriso
que do céu veio vindo
lindo no seu rostinho
há um sorriso bonito
todo cheio de viço
no rosto de Clarice
sorriso cristalino
límpido claro vivo
há um sorriso que é signo
do mistério contido
na vinda de Clarice
vindo do espaço infindo
no rosto de Clarice
há o sorriso divino

quarta-feira, 5 de julho de 2017

SACRÁRIO

na nave de uma igreja era o menino
ao menino contavam sobre Deus 
os mistérios de Deus a ele contavam
de um Deus que não se via e já se via
pois que nasceu morreu ressuscitou
subiu aos céus (sempre entre nós está)
ao menino diziam que nos templos
numa caixinha Deus reside e espera
espera os que de Deus têm sede e fome
espera por Suas frágeis criaturas
espera o amor dos que procuram Deus
o menino na nave contemplava
a caixinha e a luzinha vermelhinha
anunciando Deus que ali estava
em divindade e em sangue e em corpo e em alma
então meu coração se dilatava
como balão de encher (sai do meu peito
e faz-se em festa e saboreia Deus)

domingo, 18 de junho de 2017

PEREGRINO

vou peregrino me adentrando a alma
a alma onde está? pergunta o peregrino
mas a pergunta não o encontra aflito
buscando a alma ele regressa a casa

vou peregrino voando como pássaro
voando dentro de mim volto ao menino
reencontro nele o eterno Ser divino
que antes de mim em mim faz sua morada

vou peregrino pela suave estrada
volto ao colo materno como filho
nos caminhos de dentro e tanto o brilho
nos caminhos de dentro e tanta a calma

vou peregrino por veredas claras
o não lugar em mim é meu destino
o destino de todo peregrino
o não lugar onde a palavra cala
onde a alegria é plena (não há lástima)
e a vida vai serena como os rios

segunda-feira, 8 de maio de 2017

EM TODOS DEUS


pelo caminho encontro Deus com fome
na fome de um faminto e vou servi-Lo
quem serve não sou eu mas Deus comigo
pois no faminto e em mim há o Deus sem nome
é Deus que serve a Deus: é Deus que come
o que Ele mesmo oferta: é Deus mendigo
Deus doador: Deus que recebe e o abrigo
Deus amparando Deus na dor de um homem
o ego (que é cego) pensa que ele serve
é sempre Deus que serve: é sempre Deus
Aquele que recebe esse serviço
o mesmo Deus Aquele que me pede
o mesmo Deus recebe o meu pedido
Deus é quem fala ali no desvalido
Deus é quem geme: é Seu todo gemido
Deus auxilia e é quem recebe auxílio
é Deus em mim que atende a Deus pedindo
é Deus em mim também o amor sentido

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A CRIAÇÃO

naquele tempo não havia o tempo
só Ele havia eterno no infinito
que era todo das formas não tecido
toda forma a viver ainda não sendo

naquele tempo não havia o vento
era o som do não-vento era o vazio
de tudo que não era então nascido
não havia as tardes nem o amanhecendo

naquele tempo havia o escuro denso
o escuro imenso onde Ele (só) havia
não havia noites não havia os dias
mas sempre d'Ele havia o pensamento

do pensamento d'Ele vão nascendo
a luz as águas terra fogo abismos
as plantas pedras vão nascendo os bichos

nós que em Seu pensamento já vivíamos
nascido o tempo nós então nascemos
no tempo imerso Seu sorriso é pleno



terça-feira, 28 de março de 2017

O EGO

o ego se inflama quer aplausos grita
o ego se irrita quando não é visto
quando passeia anônimo entre os vivos
por não ser visto ele se infelicita
o ego tem medo quer-se cortejado
o ego tem raiva tem furor na alma
tem ódio quer tesouros quer medalhas
o ego percebe a alma aprisionada
ao ego e tanto sofre e perde a calma
se perde o impermanente que idolatra
o ego aborrece a vida se amofina
anda em busca daquilo que termina
sofre a ilusão do que se vai não fica
esbraveja colérico em desdita
se toma de pavor e se angustia
mas nessa forma em que ele o ego habita
quando o ego se dissolve a essência brilha
a mesma essência que é em cada vida